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Você tem dificuldade de se comunicar?

Desde criança, o meu maior desafio sempre foi a comunicação e os relacionamentos.

Depois de quase dez anos de terapia ininterrupta eu já tinha superado várias dificuldades, mas algumas questões ainda me causavam muito sofrimento.

Em 2012, eu decidi fazer uma pós-graduação em Arteterapia e quando chegou o momento de fazer o trabalho de conclusão de curso, a minha professora orientadora sugeriu que eu escolhesse um tema para pesquisar que estivesse ligado à minha história pessoal.

Eu decidi então explorar como a Arteterapia poderia auxiliar e sustentar os processos de comunicação e comecei a ler diversos livros sobre o assunto, até que descobri o livro Comunicação Não-Violenta, de Marshall Rosenberg.

Ler esse livro foi um grande presente, parece que ele foi escrito especialmente para mim! Com essa leitura finalmente consegui entender por que me comunicar e me relacionar era tão difícil.

Foi um alívio entender que eu não tinha um problema incurável, mas que certas estruturas de comunicação ao invés de estimularem o entendimento e a conexão entre as pessoas, criam barreiras, tensões e distanciamento e que eu estava apenas reagindo a isso.

 E que estruturas são essas?

A qualidade de comunicação que cria barreiras e desentendimentos em geral está ligada ao exercício do poder sobre ou outro. As relações com essa característica são baseadas em exigências e ameaças.

Dessa forma, aquele que possui mais poder (força física, dinheiro, influência, conhecimento, etc.) tem seus sentimentos e necessidades considerados e contemplados na tomada de decisões enquanto àquele que possui menos poder, resta apenas se resignar e obedecer.

Essa situação pode até funcionar temporariamente, mas a longo prazo essas relações desequilibradas começam a sofrer com distanciamento, dissimulação, falta de confiança e cooperação.

 

Para que essa estrutura de controle e exigências se mantenha, alguns recursos são utilizados, entre eles:

Recompensa e punição – Tanto a recompensa quanto a punição são formas de induzir o outro a fazer algo que ele não faria espontaneamente. A consequência desse mecanismo a longo prazo é a dissimulação e a mentira, pois a motivação não está no entendimento e no desejo de contribuir e cooperar para o bem-estar de todos, mas em receber a recompensa e/ou evitar a punição.

 

Interpretações, julgamentos e avaliações – dentro de um contexto que envolve recompensa e punição, precisamos de estratégias que nos permitam identificar quem merece ser punido e quem merece ser recompensado. Para isso é comum recorrermos a avaliações, comparações, julgamentos, rótulos: “a melhor aluna da classe”, “o funcionário do mês ”, “o irresponsável”, “a imatura”. O problema com essa dinâmica é que nos apegamos a uma imagem idealizada do outro ou a um padrão de certo e errado em que gostaríamos e enquadrá-lo.

Será que aquela pessoa que deu uma resposta inteligente dará sempre respostas inteligentes? Será que aquela pessoa que mentiu em uma situação específica mentirá todas as vezes?

Dessa forma, fixamos nossa atenção em apenas uma parte do comportamento do outro em um dado momento e deixamos de perceber a totalidade, outros aspectos da pessoa ou da situação, fazendo com que entendimento e a escuta se bloqueiam ou se limitem.

Linguagem do “Tenho que” ou “deveria” – por meio de expressões como essa, nos limitamos a pensar que não temos escolha frente à situação que vivenciamos, realizamos as ações em modo automático, sem refletir se aquele comportamento está alinhado com nossos valores ou atende às nossas necessidades.

Muitas vezes o medo da punição está fortemente associado com o “tenho que/deveria”, a ponto de termos muita dificuldade ou resistência em considerar outras alternativas.

 

Ao invés de “tenho que”, podemos focar em “eu escolho fazer isso porque”.

Veja a ampliação de perspectiva que essa pequena mudança oferece!

Por exemplo: “eu tenho que fazer uma planilha das minhas finanças” x “eu escolho fazer a planilha das minhas finanças porque assim consigo mais organização, clareza e previsibilidade sobre o meu fluxo de caixa”

 

Atribuir a causa dos sentimentos aos outros – em geral não somos educadas a compreender a real causa de nossos sentimentos, que são as nossas necessidades. Quando nos sentimos mal, atribuímos isso a alguma ação externa, da outra pessoa, por exemplo: “se você não comer tudo a mamãe vai ficar muito triste”. Esse jogo induz à culpa/vergonha e ao controle do comportamento do outro por meio de punição emocional. Imagine o peso que essa criança deve sentir por ser responsável pela alegria ou tristeza da mãe? Será que ela deixaria de respeitar os limites de seu corpo e comeria além do necessário para “fazer a mamãe feliz”? Nem todas as crianças vão reagir dessa maneira, mas este é um risco que corremos ao andar por esses caminhos.

 

Agora eu te convido a pensar em um relacionamento desafiador: você consegue identificar algum desses padrões? Quais deles estão presentes? Quais dessas expressões são mais desafiadoras para você lidar?

 

E como podemos fazer diferente?

Para praticarmos a Comunicação Não-Violenta, precisamos passar do uso do poder sobre o outro para o uso do poder com o outro.

Em um relacionamento baseado no uso do poder com, todas as pessoas envolvidas na situação, desde aquelas com mais poder até aquelas com menos poder, precisam ser ouvidas, valorizadas e consideradas e a Comunicação Não-Violenta nos oferece algumas pistas, locais onde podemos focar a atenção de forma a encontrar as chaves que abrem as portas para maior conexão.

Qual é nossa intenção ao nos expressarmos? É criar entendimento, conexão ou acusar, punir e obrigar o outro a fazer o que queremos?

O que estamos pensando? Será que a forma como interpretamos a situação corresponde ao que de fato aconteceu?

O que estamos sentindo? Como podemos reconhecer, acolher e nomear nossos sentimentos?

Do que precisamos? Quais de nossas necessidades estão atendidas e quais não estão?

Quais soluções visualizamos para atender nossas necessidades? Essas soluções cuidam de mim e do outro ou implica em um ganhar e o outro perder?

Como podemos pedir o que é importante para nós de forma clara e assertiva?

Essas perguntas são apenas algumas sugestões de como podemos melhorar e fortalecer nossos relacionamentos. A prática da Comunicação Não-Violenta oferece ainda outras alternativas e possibilidades que permitem aprofundar processos terapêuticos, de autoconhecimento, treinamentos de equipes com foco em cooperação, gestão emocional, mediação de conflitos e muito mais.

 

Colunista: Marina De Martino

Pós-graduação em Arteterapia, Facilitadora de Comunicação Não-Violenta e Justiça Restaurativa

Saiba mais sobre a Comunicação Não-Violenta e a Marina De Martino 

 Acesse o site> https://www.comunicacaoecooperacao.com/

Publicado em: 18/01/2021



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